05 de julho de 2022 · Ambiente & Ciência
Segundo dia da GLEX Summit foi dedicado ao planeta Terra e à urgência em reverter uma nova extinção massiva
Depois de uma jornada dedicada às novas fronteiras do espaço e às descobertas e oportunidades que se escondem sob os…

• Depois de uma jornada dedicada às novas fronteiras do espaço e às descobertas e oportunidades que se escondem sob os oceanos, o segundo dia da GLEX Summit foi dedicado à Terra e ao futuro do nosso planeta
• A conservação da natureza, a proteção da vida selvagem, os fósseis do passado, as proteínas do futuro, a crise climática e as novas fronteiras da engenharia genética foram alguns dos temas trazidos ao palco do Teatro Micaelense ao longo desta terça-feira
• O programa paralelo da maior cimeira de exploradores do mundo incluiu ainda uma visita ao Vulcão dos Capelinhos na ilha do Faial, num encontro irrepetível que juntou a elite dos cientistas na NASA
Com os pés no passado e os olhos no futuro, o segundo dia da Global Exploration Summit foi repartido entre as ilhas de São Miguel e do Faial, com o Teatro Micaelense a acolher um conjunto de dez apresentações dedicadas ao planeta Terra, enquanto o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, no Faial, recebia a visita de um grupo restrito de convidados, para um encontro, talvez irrepetível, entre a elite dos cientistas da NASA e os responsáveis do Geoparque Açores.
Depois de um primeiro dia em que o foco das apresentações se centrou no futuro da exploração espacial e nos desafios e oportunidades que se escondem sob os oceanos, o segundo dia da Global Exploration Summit foi dedicado ao planeta Terra e aos problemas atuais e futuros da humanidade, como a proteção das espécies ameaçadas, cujo declínio se tem acentuado perigosamente nos últimos anos, a preservação e conservação dos ecossistemas ou os efeitos irreversíveis da crise climática.
“ Estamos num ponto crítico, onde o que se segue depende apenas de nós. Enfrentamos uma nova era de extinção massiva, com a diferença de que agora o asteroide somos nós próprios, os humanos” , avisou Kenneth Lacovara, o paleontólogo que desenterrou alguns dos maiores dinossauros que já andaram à superfície da Terra. “ Os estudos dizem-nos que, a cada 20 minutos, há uma espécie que se extingue, o que significa que perdemos mais de 25 mil espécies no planeta a cada ano. Sem acesso ao futuro, resta-nos estudar o passado e aprender como poderemos mudar o curso da humanidade”.
Da extinção à… “desextinção”
A solução para este declínio acelerado de espécies pode estar na tecnologia reprodutiva e na ciência genética. Depois do Parque Jurássico ter imaginado um futuro onde era possível trazer os dinossauros de volta à vida, os cientistas da Colossal Biosciences estão a passar da ficção à realidade, com um projeto revolucionário que pretende ressuscitar uma versão híbrida do mamute-lanoso, extinto há mais de quatro mil anos, reintegrando-o no seu antigo habitat natural, nas tundras geladas da Sibéria. “É a ida à Lua do Século XXI” , disse Richard Garriot, presidente do Explorers Club, para classificar este projeto.
“Não somos deuses, mas sabemos hoje como o fazer. Temos a tecnologia, temos as equipas e temos também os recursos que nos permitem avançar com este projeto, que começou a ser preparado há mais de uma década” , explica Ben Lamm, investidor e cofundador da empresa, juntamente com o geneticista George Church, considerado o pioneiro em novas abordagens de edição de genes.
“ Os progressos têm sido incríveis, mas ainda há algumas etapas a ultrapassar, porque são processos laboratoriais extremamente complexos ”, acrescenta, por sua vez, a cientista Eriona Hyosolli, mantendo, apesar de tudo, um prazo de “seis anos” para a sua concretização.
Segundo os responsáveis da Colossal, o projeto pretende não só testar os avanços da tecnologia reprodutiva, como também ajudar na conservação de outras espécies em risco de extinção. Além disso, os cientistas acreditam que a introdução dos híbridos na tundra ártica poderá ajudar a restaurar o habitat degradado e, ao mesmo tempo, combater os impactos das alterações climáticas.
Do continente africano aos polos
O programa deste segundo dia da GLEX Summit trouxe também aos Açores vários exploradores e conservacionistas que estão a fazer a diferença no continente africano, inspirando as comunidades locais a protegerem a vida selvagem, encontrando soluções para a sua coexistência. É o caso de Leela Hazzah, premiada bióloga egípcia, que dedicou os últimos 20 anos da sua vida à proteção de leões nas regiões do Quénia e da Tanzânia. Ou do casal Dereck e Beverly Joubert, cuja missão tem sido celebrar a vida selvagem em documentários, livros e revistas científicas, alertando para o perigo de extinção dos grandes felinos. “Se não fizermos nada para inverter esta tendência, seremos cumplicies do maior crime cometido neste planeta” , declarou Dereck Joubert.
Depois de África, os polos, com o explorador norueguês Borge Ousland, que há mais de 25 anos faz história no Ártico. Em 1994, fez a primeira viagem a solo ao Pólo Norte desde o Cabo Ártico, na Rússia. E, três anos depois, tornou-se na primeira pessoa a atravessar a Antártida a pé e sem qualquer apoio. Aos Açores, veio contar a sua mais recente e extrema proeza: atravessar o polo norte a pé e na total escuridão, numa jornada que se arrastou por quase 90 dias e com temperaturas a rondar os 40 graus negativos. “Foi mesmo no limite. Embora incrível, é uma experiência que não recomendo a todos” .
O último painel dedicado à Terra deu ainda a conhecer o projeto fundado e liderado pelo paleoclimatologista Jérôme Chappellaz, “Ice Memories”. Patrocinado pela UNESCO, este programa internacional propõe-se a recolher amostras de gelo glaciar em todas as grandes montanhas do mundo, para serem guardadas e conservadas com todos os seus registos e testemunhos.
“Os glaciares contam-nos a história da evolução do clima na Terra. São como cápsulas da atmosfera de tempos passados. É urgente preservar estes registos, porque estamos a ficar sem glaciares e sem tempo” , adverte o antigo diretor do Instituto Polar Francês (IPEV). O objetivo é criar na Antártida uma espécie de Arca de Noé do gelo para futuras gerações de pesquisadores.
Nova geração de exploradores em destaque no 3º dia
Amanhã, quarta-feira, o programa da GLEX Summit será dedicado ao EX50 e à nova geração de exploradores. Este programa anual, lançado pelo The Explorers Club, pretende dar a conhecer ao público uma lista de 50 pessoas que estão a mudar o mundo e que o mundo deveria conhecer.
Integrados neste painel estarão nomes como Sian Proctor, a primeira astronauta negra comercial a pilotar uma nave espacial, o biólogo Joshua Powell, a ecologista Natalie Schmitt, o artista visual e autor John Mack, a exploradora polar Sunniva Sorby, a conservacionista Onkuri Majumdar ou a médica e aquanauta Shawna Pandya, primeira a testar um fato espacial comercial em gravidade zero.
A sessão de encerramento do programa presencial da cimeira está marcada para às 13h20 desta quarta-feira, no Teatro Micaelense, com as presenças do Ministro da Economia, António Costa Silva, e da Secretária Regional do Turismo, Berta Cabral.
A GLEX Summit é uma organização conjunta da Expanding World e do The Explorers Club, com os apoios do Governo dos Açores e do Turismo de Portugal.